A verdade que ninguém conta sobre o custo de ter consciência de um problema

Frequentemente ouvimos que a consciência é o primeiro passo para a mudança. No entanto, saber que algo precisa ser transformado não garante, por si só, que a transformação aconteça. A verdade é que ter consciência de um problema é apenas o início de um processo árduo.
Constatar e reconhecer de fato uma realidade dolorosa, integrando-a à própria história, pode ser aterrorizante. Esse movimento exige abandonar as defesas construídas ao longo de anos e encarar um profundo trabalho de desilusão.
Quem é meu paciente sabe e já deve ter ouvido: apenas consciência não basta! Mas será que você está disposto(a) a ir além?
É que na verdade a mudança pode cobrar um preço bem alto, da mesma forma que permanecer do mesmo jeito também!
Quando a ilusão desmorona, a posição que vinha sendo mantida até então deixa de fazer sentido. É natural que esse choque venha acompanhado de um turbilhão de emoções intensas como tristeza pela perda do que se imaginava ser real; raiva por perceber o tempo investido em falsas premissas; angústia diante da incerteza do futuro e da falta de garantias; desânimo ao notar a magnitude do abismo entre o ideal e o real.
Atravessar essa fase exige extrema delicadeza. É a sensação literal de ficar sem chão, desprovido das antigas referências que davam contorno e segurança à existência.
Desabar faz parte.
Paradoxalmente, esse desmoronamento traz, ao mesmo tempo, um profundo descanso e a instauração de um luto inevitável.
Trata-se de chorar a morte de tudo o que foi vivido sob a ótica da ilusão. É o luto de papéis sociais rigidamente desempenhados, de lugares ocupados por obrigação e de relações sustentadas à base de expectativas irreais. É a queda daquela vida em que se acreditava ter controle absoluto sob a proteção de um personagem cuidadosamente ensaiado.
Quando a pessoa real finalmente emerge debaixo dessa armadura, surge uma vertigem: ela não sabe se consegue se encaixar nessa nova realidade constatada.
Não se encaixar em quem era e não fazer a mínima ideia de quem é no momento presente
Nesse processo de clareza, verdades duras vêm à tona. Descobre-se, por exemplo, que certas pessoas não vão mudar, por mais que se tenha investido energia acreditando no oposto. Compreende-se que há necessidades emocionais fundamentais que jamais serão preenchidas pelos outros, exigindo que a própria pessoa aprenda a cuidar de si mesma.
O resultado é uma sensação avassaladora de completo desencaixe. Mas é justamente nesse espaço vazio, longe das antigas ilusões, que a verdadeira autonomia começa a ser construída.
Conquistar essa autonomia significa abandonar a expectativa infantil de que alguém virá resgatar ou validar a própria existência. É assumir as rédeas da própria vida, bancar as próprias escolhas, mesmo quando desagrada, e responsabilizar-se pelo próprio bem-estar. A autonomia real nasce da coragem de habitar a própria realidade, sem muletas e sem personagens.
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Vanessa de Almeida
Psicóloga clínica e Psicoterapeuta de Casal e Indivíduos
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