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Por que o que vivemos na infância influencia o adulto que nos tornamos?

Foto do escritor: psicovanessadealmeida
psicovanessadealmeida
2 de set.
5 min de leitura

Nem sempre conseguimos explicar por que algumas situações nos desorganizam tanto.

Uma crítica pequena pode parecer uma rejeição. Um silêncio pode despertar ansiedade. Precisar de alguém pode trazer desconforto. Errar pode provocar uma sensação desproporcional de fracasso.


E, em alguns momentos, mesmo quando sabemos racionalmente que está tudo bem, alguma coisa dentro de nós parece esperar que algo dê errado.


Muitas vezes, essas reações não começaram na vida adulta.


Elas podem estar relacionadas às experiências que tivemos ao longo do desenvolvimento e, principalmente, à qualidade do ambiente emocional em que crescemos.


Isso não significa que nossa infância determine para sempre quem seremos. Significa que as primeiras relações nos oferecem, ou não, determinadas condições para desenvolver segurança, confiança, autonomia e capacidade de lidar com as próprias emoções.


É nesse sentido que podemos falar sobre a importância de um ambiente suficientemente bom.


O que é um ambiente suficientemente bom?


Um ambiente suficientemente bom não é um ambiente perfeito.

Não existe família perfeita, pais que nunca erram ou uma infância sem frustrações. Crianças não precisam crescer em uma realidade sem conflitos, limites ou dificuldades para se tornarem adultos emocionalmente saudáveis.


O que faz diferença é encontrar, de maneira predominante, um ambiente no qual exista segurança emocional, previsibilidade, cuidado e espaço para ser quem se é.


É poder sentir que existe alguém disponível quando necessário, poder expressar tristeza, raiva, medo ou insegurança sem precisar esconder constantemente aquilo que se sente para continuar sendo amado, ter limites, mas também acolhimento.


É poder errar sem sentir que o erro coloca em risco o vínculo. É descobrir, pouco a pouco, que o mundo pode ser um lugar onde nem tudo está sob controle, mas onde é possível encontrar apoio para lidar com aquilo que acontece.


Esse tipo de experiência contribui para a construção de uma sensação interna de segurança.

E essa segurança acompanha a pessoa para além da infância.


A criança aprende sobre o mundo através das relações


Antes de conseguirmos compreender racionalmente o mundo, nós o experimentamos através das relações.


Uma criança que chora e encontra alguém que tenta compreender o que está acontecendo começa, aos poucos, a aprender que suas necessidades podem ser reconhecidas.


Uma criança que se assusta e encontra alguém disponível para ajudá-la a se acalmar começa a descobrir que o medo pode ser suportado.


Uma criança que erra e não é humilhada aprende que errar não significa perder seu valor.


Uma criança que pode brincar, explorar e depois retornar para uma relação segura encontra condições para desenvolver curiosidade e autonomia.


Essas experiências vão formando referências internas. Não são ensinamentos feitos por meio de discursos. São experiências repetidas.

É como se, pouco a pouco, a pessoa pudesse construir algumas certezas emocionais:

“Eu posso precisar de alguém.”

“Eu posso me afastar e depois voltar.”

“Posso sentir coisas difíceis sem ser destruído por elas.”

“Posso ser eu mesmo e continuar pertencendo.”

“Posso errar e continuar tendo valor.”


Essas experiências fazem diferença na maneira como, mais tarde, nos relacionamos com nós mesmos e com outras pessoas.

E o que acontece quando esse ambiente não foi suficientemente bom?


Nem sempre uma infância difícil produz um adulto com dificuldades emocionais. Da mesma forma, uma infância aparentemente tranquila não garante que alguém nunca enfrentará sofrimento psicológico.


As experiências humanas são muito mais complexas do que isso. Mas ambientes marcados por instabilidade, negligência emocional, críticas constantes, imprevisibilidade, rejeição ou ausência de disponibilidade afetiva podem dificultar a construção de algumas bases importantes para a vida adulta.


A pessoa pode crescer sentindo que precisa estar sempre atenta ao humor dos outros, pode aprender a não incomodar, ter dificuldade para pedir ajuda, acreditar que precisa dar conta de tudo sozinha, sentir culpa quando estabelece limites.


Pode interpretar qualquer afastamento como abandono, buscar constantemente aprovação, ter dificuldade em confiar. Pode se tornar extremamente exigente consigo mesma.


E, principalmente, pode não perceber que muitas dessas respostas foram formas inteligentes de adaptação ao ambiente em que viveu.


Aquilo que hoje parece “exagero”, “carência”, “frieza” ou “necessidade de controle” pode ter sido, em algum momento, uma maneira de se proteger.


A autonomia não nasce da ausência de cuidado


Existe uma ideia bastante difundida de que, para se tornar um adulto forte e independente, é preciso aprender desde cedo a não depender de ninguém. Mas autonomia não significa não precisar de ninguém.


Na realidade, a capacidade de caminhar sozinho pode ser construída justamente a partir da experiência de ter encontrado apoio. Quando uma pessoa sabe que pode recorrer a alguém sem perder sua liberdade, depender deixa de significar fraqueza.


Ela pode pedir ajuda sem sentir que está se anulando. Pode estar em uma relação sem perder sua individualidade. Receber cuidado sem sentir que está contraindo uma dívida emocional.


Pode dizer “eu preciso de você” e, ao mesmo tempo, continuar sendo uma pessoa inteira.

Isso é muito diferente de uma dependência em que o outro precisa ocupar o lugar de quem sustenta toda a nossa segurança.


A autonomia saudável não é isolamento, mas sim poder estar com o outro sem deixar de existir como indivíduo.


O ambiente continua importante na vida adulta


Talvez essa seja uma das partes mais importantes dessa reflexão. O ambiente não deixa de exercer influência quando crescemos. Nossas relações amorosas, amizades, família, trabalho e até os espaços que frequentamos podem favorecer ou dificultar nossa sensação de segurança.


Um relacionamento no qual existe respeito, previsibilidade e possibilidade de diálogo pode funcionar como uma experiência emocionalmente reparadora. Da mesma forma, relações marcadas por ameaça, desvalorização, controle, indiferença ou instabilidade podem manter uma pessoa constantemente em estado de alerta.


Por isso, cuidar da saúde emocional também envolve olhar para os ambientes dos quais fazemos parte.


Às vezes, a pergunta não é apenas: “O que há de errado comigo?”

Talvez seja também: “O que está acontecendo ao meu redor?”, “Como me sinto nas relações que mantenho?”, “Tenho espaço para ser quem sou?”, “Posso expressar minhas necessidades?”, “Existe reciprocidade?”, “Sinto que preciso me adaptar o tempo inteiro para não perder o vínculo?”


Essas perguntas podem revelar muito.


É possível construir novas experiências


Reconhecer que nossas primeiras experiências tiveram influência sobre nós não significa culpar nossos pais, permanecer preso ao passado ou concluir que estamos condenados a repetir aquilo que vivemos. O desenvolvimento continua.


Ao longo da vida, encontramos pessoas, relações e experiências capazes de ampliar nossas referências sobre nós mesmos e sobre o mundo. Podemos aprender que nem todo conflito termina em abandono.


Que pedir ajuda não nos torna fracos, colocar limites não significa deixar de amar. Que uma relação saudável não exige que desapareçamos dentro dela. Que podemos discordar e continuar pertencendo. Que podemos errar sem perder nosso valor.


A psicoterapia também pode oferecer um espaço para que essas experiências sejam compreendidas e, gradualmente, novas formas de se relacionar consigo mesmo e com os outros possam ser construídas.


O adulto saudável não é aquele que nunca precisa de ninguém


Talvez uma das maiores marcas de uma vida emocionalmente saudável não seja a independência absoluta. É a capacidade de transitar entre dependência e autonomia.

Saber quando pedir ajuda e quando caminhar sozinho.


Conseguir confiar sem se entregar completamente ao outro, se vincular sem se perder.

Conseguir cuidar sem assumir responsabilidade por tudo e receber sem sentir que precisa pagar imediatamente pelo que recebeu.


Conseguir estar sozinho sem transformar a solidão em isolamento.


Um ambiente suficientemente bom não produz pessoas perfeitas, mas oferece condições para que uma pessoa desenvolva recursos internos para enfrentar um mundo que, inevitavelmente, também será imperfeito.


Crescer significa poder precisar, escolher, confiar, se separar, retornar, frustrar-se, recomeçar e continuar sendo você. E talvez essa seja uma das maiores formas de saúde emocional: não precisar construir uma armadura para conseguir viver.


Se essa reflexão fez sentido para você, compartilhe.


Vanessa de Almeida

Psicóloga clínica e Psicoterapeuta de Casal e Indivíduos

WhatsApp: (31) 99294 3850


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